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domingo, outubro 29, 2006

O Fogão da Tia Dilina

Tia Dilina recebeu uma visita à noite. Hospitaleira, carinhosa, mandou a amiga entrar, abraçaram-se, sentaram-se e começaram a tricotar prosa.

Conversa vai, conversa vem, no varejo e no atacado, no particular e no coletivo, foram para a cozinha, preparar um cafezinho. E por ali ficaram; sentaram-se e deram trela à prosa. Depois de horas, a visita ainda permanecia disposta a continuar o rosário de causos, e tia Dilina já dava mostras de cansaço. Apoiava os queixos nas mãos, os olhos ardendo de sono, quase se fechando; de vez em quando, faltava-lhe o apoio para o queixo, e o súbito meneio da cabeça a trazia de volta à realidade: a luz acesa, as duas sentadas, e a visita falando sem parar.

De repente, a amiga, que não se tocava, perguntou-lhe sobre as virtudes do seu fogão novo.
Tia Dilina, sonolenta, respondeu com voz pastosa:
- Este cuzão até que foguinha bem.

A visita espantou-se; pigarreou, empertigou-se, esperou alguns segundos e sugeriu à amiga Dilina que talvez já fosse tarde, e que poderiam, deixar um pouco de prosa para outra ocasião.

Tia Dilina levantou-se, grogue, acompanhou a visita até a porta, e depois de um arrastado “Boa noite, vá com Deus”, voltou à cozinha e, antes de apagar a luz, olhou com doçura para o fogão, como se quisesse agradecê-lo por algo.

Adaptado do Conto do Dr. Assis

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