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domingo, outubro 29, 2006

Trilogia 1/3 - A Noiva da Figueira


Na estrada que desce do Bairro dos Lopes para a fazenda de meu avô, bem depois de passar pelo ribeirão, na primeira curva, enredada no barranco, existe até hoje uma figueira centenária. Árvore sombria, que derrama sobre a estrada seus galhos azarentos, lançando sombras malfazejas sobre os passantes. Não há quem passe sob a árvore que não se benza e mesmo assim não sinta calafrios.

Houve quem quisesse cortar a figueira e erradicar da memória o funesto acontecido, mas quem teve coragem para tanto?

Dizem que um fantasma habita a árvore, talvez mais de um, quem pode saber ao certo? Só uma coisa se pode fazer: rezar junto ao tronco pelas almas desgraçadas, pedir a Deus misericórdia.
Pois bem, tudo aconteceu há muitos e muitos anos, num tempo em que os pais decidiam o destino de seus filhos. Helena era a moça mais bonita do lugar. Não era só bonita, era a moça mais prendada e virtuosa, porém o seu pai era autoritário, mandão, ambicioso e avesso ao diálogo. Ele resolveu que ela devia se casar, o que significava, no seu modo de entender, casar bem com um parente rico para aumentar as posses da família.


Mas Helena já estava apaixonada por outro moço, sua paixão era segredo absoluto uma vez que era por meu Tio Sinésio e as famílias não se davam muito bem. Ela ainda nem tivera coragem de dizer do seu amor para ninguém. A paixão por meu tio nasceu de um encontro casual quando, pela primeira vez, Helena deixou a missa e encontrou o meu tio amarrando o cavalo em um galho baixo da figueira. Foi apenas uma conversa descontraída à sombra da árvore, mas que despertou em ambos uma paixão de primeira vista. Os encontros e namoros naquela época eram difíceis e demorados, Tio Sinésio se encontrava com Helena somente uma vez por mês, quando ela conseguia escapar da cerrada vigilância da família durante a missa, encontravam-se às pressas e renovavam uma relação profunda, escondidos da vista das famílias inimigas, mas sob os ramos amigos da figueira centenária.

Quando Helena estava criando coragem para declarar o seu amor pelo meu tio, o seu pai a chamou e disse que escolhera para ela o melhor de todos os rapazes do lugar, o seu primo Ramiro. A moça caiu em prantos, implorou pelo amor de Deus, jogou-se no chão, beijou os pés do pai; pai não me condene a um casamento infeliz. O pai não quis saber de história, não aceitou desculpas nem argumentos, menos ainda choradeiras. Nunca dava ouvidos a ninguém. Deu Helena em casamento ao primo Ramiro, o filho único de seu irmão mais velho e também o mais rico.

Ramiro estava de olho em Helena havia muito tempo, era apaixonado pela moça, e o pai dela sabia disso muito bem. Era tudo que ele queria para garantir, no seu modo de entender, um futuro seguro e próspero para a sua filha. Proibiu Helena de sair de casa até o dia do casamento, não poderia ir nem na missa e selou a decisão com uma sentença: - Mato quem se intrometer nesse casamento. Helena chorou, argumentou, esperneou, fez até greve de fome. Mas não teve jeito, seu destino estava traçado, tinha que se casar com Ramiro. Estava decidido e pronto.

Helena foi sincera com o noivo arranjado: - Se você me ama como diz, não case comigo. Ele não entendia, ela procurava explicar: - Meu coração não lhe pertence. E dizia mais: - Meu coração nem pertence mais a mim. Ele não entendia, ela procurava convencê-lo: - Se me obrigam, caso com você. E concluía com tristeza: - Mas jamais serei sua mulher.

Ramiro estava completamente apaixonado e tinha certeza que Helena com o tempo o amaria. Contra a vontade da noiva, apressou o casamento. O casório foi esplêndido, beleza, luxo, fartura, nada foi economizado. Todos foram convidados, menos a família de meu avô, o meu Tio Sinésio, para não fazer besteira maior, sumiu no mundo. Tudo muito bem cuidado, tudo muito enfeitado no povoado, tudo bonito. Festa de muita comida, muita música e alegria. Somente a noiva estava triste. Já no final da festa, Helena pediu licença para se retirar um pouco. Ia trocar de roupa, algo assim. Saiu e o noivo ficou à sua espera. Passou-se o tempo e ela não voltou. O noivo foi procurá-la por toda a festa e em todo o povoado e não a encontrou. Perguntou pela noiva a todos os convidados, nada. Saiu à rua, estava tudo deserto, acabou encontrando um velho alto, magro e muito pálido.

Não teria sido convidado para a festa?, perguntou-se. Ramiro não gostou dele, tinha qualquer coisa de agourento.

Mas mesmo assim perguntou, com medo da resposta: - O senhor não viu uma linda moça passar por aqui? - Sim, vi a sua noiva descer a estrada correndo. - E para onde ela foi? Me diga pelo amor de Deus. - Fugiu para as bandas do ribeirão.

O noivo correu na direção indicada pelo velho. No final da rua pegou a estrada, desceu cem, duzentos metros, entrou numa curva, tropeçando feito doido pelo caminho de terra, e então, numa baixada, deu de cara com a noiva amada. Seu corpo, ainda no vestido branco, de véu e grinalda. Pendia sem vida de um galho da figueira. Helena se enforcara.

Casara-se com ele, mas nunca seria sua mulher, como tinha prometido. Sentido-se culpado por aquela desgraça, o noivo inconformado gritava: - Eu te amei, eu te matei! Desde então, quem passa sob a árvore em noite alta ouve o baque surdo de um corpo que cai sendo freado bruscamente pelo nó da corda. Dizem que, para certas pessoas, ao soar das badaladas da meia-noite, vestida de noiva, de véu e grinalda, ela ainda aparece pendurada na figueira. Lá longe, no manicômio, o noivo Ramiro ainda grita de dor: - Eu te amei, eu te matei!


O pai de Helena nunca mais conseguiu dormir. Todas as noites que lhe restaram de vida ele as consumiu vagando insone pelos corredores da casa, os passos se arrastando no soalho gasto por seu pisar de botas, a cabeça e o coração perdidos num torvelinho de dor, vergonha e arrependimento.


Dizem, sim, dizem muitas coisas, que durante anos a figueira da noiva foi freqüentada todas as noites por um rapaz solitário e triste. Ele não queria ter mais nada nesta vida. A vida neste mundo de fato não mais lhe interessava. Trabalhava o dia inteiro e de noite ia dormir sob a árvore. Era Tio Sinésio, o pobre enamorado secreto de Helena, fazendo companhia a sua querida assombração.

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