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domingo, outubro 29, 2006

Trilogia 3/3 - Os Gemêos do Espelho

Tio Sinézio casou muito rápido com minha Tia Glória, sem aqueles longos preparatórios de casamento antigo, o enxoval de minha Tia já estava arrumado a muitos anos e minha avó fazia gosto de ver seu filho casando logo, por isto entregou para o meu Tio uma fazenda quase toda formada. Não se passou muito tempo e Tia Glória estava grávida, e menos tempo ainda veio a surpresa, nasceram gêmeos, dois irmãos de nomes Deuscir e Deuscélio. Eram gêmeos, idênticos em tudo, menos na alma. Estavam sempre juntos, vestidos igualzinho. Todos os confundiam menos o pai e a mãe. Deuscir era um menino bom, Deuscélio era um menino mau, o preferido da mãe. Eram bonitos, saudáveis, inteligentes e muito unidos, nunca se separavam.
Se for mesmo verdade que neste mundo tudo tem seu lado bom e seu lado mau, os gêmeos representam a síntese perfeita.

Deuscir, o gêmeo bom, adorava os animais. Alimentava-os, dava-lhes carinho, passava horas em sua campainha, dormia com gato. Deuscélio tratava mal os bichos.Uma vez amarrou uma corda embebida em álcool no rabo do gato predileto do irmão, e botou fogo. O Tio Sinézio salvou o gato das chamas. Era ele, o pai, que tinha que consertar as maldades do menino.

A Tia brigava com o Tio, quando ele repreendia o filho e o ameaçava com umas palmadas. A Tia Glória sempre defendia o menino malvado. O Tio premiava as boas ações do outro filho, dava-lhe pequenos presentes, como um carrinho, uma bola, uma bala. Mas o agradinho acabava como posse do outro.

Deuscélio tirava do irmão suas coisas preferidas e depois as abandonava ou as jogava fora, quase sempre quebradas. Só pelo prazer de privar o irmão de seus pertences. Deuscélio também gostava de pequenos furtos.

A mãe defendia o filho dizendo: -Mas ele só faz por brincadeira! Mas quem caminha com o mal tropeça e cai. Os meninos brincavam horas no paiol. Deuscélio não se contentou com a diversão, queria emoção maior.

Numa tarde os dois irmãos estavam lá brincando, Deuscélio pôs fogo no paiol. Que cena horrível, todos tentando apagar o fogo.Algo de errado no plano de Deuscélio, os dois não conseguiram escapar do paiol.

Tio Sinézio embebeu as roupas em água e entrou no meio do calor e da fumaça. Achou os dois filhos presos num jirau bem no alto. Para tirar os filhos de lá tinha que descer de uma escada com um de cada vez. Não se sabe se foi o acaso ou o coração do pai que escolheu. O primeiro a ser salvo foi o Deuscir (o irmão bom), na volta para buscar Deuscélio, não deu tempo. O telhado desabou e o fogo engoliu o menino. Os dias seguintes foram tristes e de luto. Mas o Tio Sinézio adorava o filho salvo, se senTia feliz por ele.

A Tia glória não foi mais a mesma, nunca mais dirigiu a palavra ao marido. Nem um ano tinha se passado e a vida tentava retomar o seu percurso. Deuscir senTia muita falta do irmão, parecia que tudo que fazia não se completava, como se lhe faltasse uma metade. Um dia Deuscir olhou-se no espelho e notou alguma coisa esquisita. A imagem no espelho não era a dele. Era a mesma imagem, mas era diferente. A imagem no espelho era a de Deuscélio e de repente Deuscir deixou de ser ele mesmo e deu lugar a seu irmão. Desde aquele sinistro dia, fatos impensados começaram a acontecer. Havia momentos em que o Tio Sinézio senTia que o filho querido se comportava como se fosse o irmãozinho morto. Transformava-se num menino mau, com ruindade da alma. A Tia Glória exultava, senTia que seu tão querido filho estava de volta.

Quando o menino fazia alguma coisa errada, a mãe defendia o filho: - Mas ele só faz isso por brincadeira! Passado algum tempo, o menino voltava a ser o anjo bom que o pai sempre amava.

E assim foi. O Tio Sinézio passou a vigiar o menino, sabia que alguma coisa estava errada.

Acabou presenciando a cena do espelho. Viu os gêmeos no espelho, assistiu à troca, compreendeu. O Tio amava o menino bom. Não se sabe se foi o coração de pai que escolheu, como não se sabe se ele teria outra escolha. Nunca mais permitiria que a imagem virtual do filho morto, o gêmeo mau, se apossasse do corpo real do menino vivo, o gêmeo bom. Para libertar para sempre o filho bom, Tio Sinézio correu e quebrou o espelho em mil pedaços, deixando o filho mau preso nos estilhaços.

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