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quarta-feira, outubro 20, 2010

Bar do Delicado




O verão chegou para valer à pequena Piranguçu, MG. Acostumados ao clima ameno da Mantiqueira, os moradores, que não passam de 5.200, se recolhem na tarde sonolenta. O silêncio só é cortado por um som de trator ao longe, o ronco de um carro ou outro e pela voz de Inezita Barroso que canta "A Marvada Pinga". Os versos, louvando os efeitos da cachaça, chegam até a rua vindos de um sobradinho que ostenta na entrada uma placa: Restaurante do Delicado. Na entrada, um senhor magrinho e sorridente estende a mão: "Fiquem à vontade, a casa é de vocês", cumprimenta, na maior sinceridade. É Benedito Miranda, que todo o mundo conhece como Delicado, apelido cuja origem ele explicará no meio da prosa arrastada.

É uma gravação de Waldir Azevedo interpretando no cavaquinho o choro "Delicado", que seu Dito não parava de ouvir no pequeno bar que possuía antes de abrir o restaurante. "Era um simples pingueiro, mas quem ia lá tinha que ouvir o Waldir Azevedo tocando", diz seu Delicado, que reserva lugar de honra para o velho disco.As mesas do restaurante, forradas de plástico estampado com grandes flores vermelhas, acomodam "meio apertado", umas 80 pessoas. Espaço que mal contém a clientela dos finais de semana. 



Mas quais seriam as razões do sucesso do restaurante se ali não há o menor luxo e os fregueses têm que comer, muitas vezes, com o prato na mão? Dona Nina, mulher de Delicado e comandante da cozinha arrisca uma explicação: "aqui só entram quatro tipos de tempero: sal, alho, cebola e cheiro-verde. É tudo muito simples."

Delicado, segundo os fiéis freqüentadores, investiu na simplicidade, na contramão dos temperos à base de ervas finas, vinhos, vinagres balsâmicos e outras sofisticações das quais dona Nina nunca sequer ouviu falar. Sendo assim, o cardápio, que se resume a leitão à pururuca, lombinho, tutu, couve, arroz e macarronada "tem gosto de comida" - como diz Delicado. Investindo na simplicidade, ele resgatou o gosto real dos alimentos."Carne de leitoa tem que ter gosto de carne de leitoa, o feijão de feijão e a couve de couve".



Delicado, move-se com agilidade, como uma criança, vitalidade surpreendente para seus 70 anos. Ao mesmo tempo, exala tranqüilidade e calma, inspira sossego e gosta de uma boa prosa.

A seriedade é outra marca do singular caráter de Delicado, por conviver com um espírito que brinca todo o tempo, sempre pronto a um chiste, uma piada, um comentário bem-humorado. Uma de suas brincadeiras prediletas é identificar em mesa de conhecidos alguém que chega pela primeira vez, vestir uma máscara de tristeza após algum elogio à comida e murmurar, de olhos baixos: “É, mas eu vou ter de fechar”. Invariavelmente o novato interpela: “Mas por quê?”. E ele, com um sorriso maroto, emenda: “É, se não fechar todo dia os ladrões levam tudo...”. Desavisados caem no logro de levá-lo a sério quando aconselha: “Nunca se deve cheirar cachaça boa, a boca enche-se de água e isso estraga o sabor da pinga”. 



Textos extraídos da revista Globo Rural  (edição 244  fev/06) e do site www.piranguçu.com.br - texto de Francisco Villela

2 comentários:

  1. Adoro!!! Todas as vezes que minha familia se reúne em Itajubá, é certeza um almoço no Delicado. Eu recomendo.

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  2. Ai que saudade do véinho e de quando trabalhava em Piranguçu e podia almoçar lá todos os dias ...Desfrutar das agradavéis companhias e da implicancia com uma blusa rosa que ele jurava ser vermelha e desde então eu virei flamenguista kkkk segundo o fofo do Seu Delicado, que, para mim, tem tal apelido por causa dessa mansidão isso sim!

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