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quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Prosa à Mesa

´ A busca da verdadeira essência da cozinha de Minas Gerais

A comida mineira é mais um jeito do que uma receita. Quando viaja, que dizer, quando é feita em outro lugar que não naquele miolo de Minas, surge os problemas do jeito de fazer. Tem gente que leva os ingredientes, mas às vezes nem isso adianta, fica faltando sabe-se lá o que, talvez ambiente, palpite de mãe, barulho dos irmãos, dos amigos, da cachacinha inigualável, por melhor que seja, e pode ser que até alguma montanha com seus ares.

Um casal de mineiros, com vinte anos de São Paulo, melhorou de vida e quis montar um restaurante. Ela, grande cozinheira; ele boa boca, bem relacionado. Cansados de ir aos restaurantes mineiros da cidade e sair botando defeito, resolveram desafiar. Contrataram os melhores cozinheiros que puderam testar. Doceira. Montaram a casa como uma grande cozinha, fogãozão de lenha a vista. Queriam fazer tudo no jeito, comidinha feita na hora.Surge aí a possível incompatibilidade entre a cozinha mineira e o negócio. Com o tempo o casal aceitou ir deixando tudo meio pronto e evoluiu para o pronto, tipo self-service. Já tinham uma freguesia de mineiros desgarrados, muitos acharam mais prático, e foi se levando.

Até que um dia os dois receberam a notícia:
- O Meco vem de Minas com uns amigos passar uma temporada em São Paulo e quer conhecer o restaurante.

Tremeram, ficaram apreensivos e felizes com a visita, porém ela havia aprendido tudo com ele. Era um cozinheiro de mão cheia, um mestre. Ele possuía um restaurante no sul de minas e tinha uma clientela selecionada.

Sempre insistiu na importância de fazer tudo na hora senão:
- A couve fica amarelada. Couve requentada não presta. Tem de ir verdinha para o prato, mais verde do que foi para a panela, porque ganha o brilho da manteiga. E não pode cozinhar, é só dar um susto nela. Torresmo também é na hora, senão murcha, igual pipoca. No máximo uma hora antes. O quiabo amarela, fica aguado, baba. A costelinha embaça. O feijão-tropeiro arreia, fica com a farinha encharcada, pesado. A mandioca frita murcha. O arroz cola. A costela cria sebo. A pele do leitão emborracha. O jiló se desmancha, descora. O angu vai entijolando. A farofa bobeia. A lingüiça enrijece, perde o sumo. O tutu resseca. Bom de véspera só feijão gordo e frango ao molho pardo. Receios justificados, portanto. Mesmo preocupado com a possível decepção, o casal convidou velhos amigos do Meco, alguns daqueles mineiros desgarrados e outros donos de restaurantes mineiros. No fim eram tantos que foi preciso dividir a turma em dois sábados.

Foi uma festa. Mas repararam que o Meco comeu pouco, bebeu o razoável e conversou muito.
No final já quase todos de pé, o casal se sentou ao lado dele para saber sua opinião.

- E a comida?- Eu estava meio sem fome, acho que dá pro gasto.

- Os doces?- Muita calda e pasta. Faltou um docinho de mão.

- A cachacinha?- Não é má, mas pode melhorar.

Mortificados, pensaram, sábado que vem ele não volta. Arriscaram:

- Você vem no outro sábado?

- Imperdível! A prosa estava ótima!

Metade do sabor da comida mineira é a prosa.


Adaptado do conto de Ivan Angelo - Set. 1999

Um comentário:

  1. Excelente postagem!
    É igual o Café, não importa se é morno ou quente, forte ou fraco. O que importa é a Prosa...rs
    Inté Uai!

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