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sexta-feira, setembro 23, 2011

Genesio Fernandes


Pintura premiada no Festival de Ouro Preto - MG em 1970 

Tive a honra de conhecer o Genesio Fernandes como meu professor de Educação Artistica no Polivalente de Itajubá, nos meados dos anos 70. Mineiro de Maria da Fé, ele iniciou missionário, mas a sua verdadeira pregação sempre foi, nos avisar que na subida íngreme da montanha é melhor levar o embornal cheio de letras e artes pro caminho ficar mais leve e divertido.

Existem vários contos e pinturas no seu perfil no facebook, escolhi um conto que mais gostei (VAMPIRO MORRE EM MARIA DA FÉ) e coloquei no link, mais informações, abaixo neste post. 

Genesio Fernandes, por ele mesmo, no facebook:

Nasci na roça, nos grotões de Minas. Trabalhei na lavoura até os 13 anos, plantando milho, feijão e fumo. O missionário chegou e perguntou se eu não queria estudar para ir converter papua na Nova Guiné. Fui, mas desisti dessa idéia e fui servir o exército, trabalhar e estudar. Fiz o Curso de Letras em Itajubá (FAFI), Especialização em Belo Horizonte (UFMG), Mestrado (Teoria da Literatura) em Recife (UFPE), Doutorado (Semiótica) em São Paulo (USP). Lecionei nas escolas de Ensino Fundamental e Médio do sul de Minas, na Universidade Federal do Acre (UFAC) e na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Aposentei-me e voltei para a roça, nos grotões de Minas. Vivo no meio de uma floresta que conservo. Sempre tive um pé nas letras e outro nas artes plásticas

PS. O Genesio é o autor daquele quadro que ficou anos pendurado na sorveteria da praça de Itajubá, agora ele me disse que, talvez por causa da enchente, foi transferido lá para o Ranchinho do Pastel de Milho. Vamos lá procurar para colocar a foto aqui no Curvas de Rio...


VAMPIRO MORRE EM MARIA DA FÉ POR FALTA DE SANGUE  DO TIPO  “SF”

A notícia é verdadeira. Este caso é baseado em fatos, em acontecimentos reais. Hostórias dessas que a gente pode ver com os olhos e tocar com as mãos, que a terra há de comer um dia. Disso, ninguém soube na terra do azeite, mas foi coisa que crepitou, ardeu, fedeu e estourou numa noite escura do carnaval...

A folia do carnaval é mesmo hipnotizante, uma anestesia para os sentidos. Todo mundo sai do ar, esquece tudo, não vê mais nada, não escuta e nem cheira com o narigão que, um dia, vai parar no cemitério cheio de limo verde. Pode acontecer o que for nos dias de folia – que ninguém percebe nada. Mas aconteceu e O COISA surgiu.

Dizem que O COISA apareceu em uma grota fria nos limites de Maria da Fé e Dom Viçoso, uma biboca escura, pedregosa e mal assombrada. Não sei onde. Não quero saber e nem desejo que me indiquem o lugar. Prefiro assim. Apenas conto para que isso não fique encoberto.

Antigamente, esse lugar era passagem da gente do rei. Comerciantes, mensageiros e fiscais da coroa iam e vinham por esses caminhos do sul de Minas, caçando riquezas fáceis, carregando ouro, roubando e matando seus desafetos. Era a rota das paixões mais sórdidas e a cobiça falava mais alto do que tudo.

Assim, na tal grota, um honesto fiscal bebera muito e, quando estava sem poder parar em pé, um fiscal das vendas de pérolas, seu colega, apunhalou-o e o enterrou ainda gemendo e jurando vingança eterna contra todos os fiscais do mundo – até o final dos tempos. Disse, já com a boca meio entupida de terra, que voltaria um dia e BEBERIA O SANGUE DE TODOS OS FISCAIS que encontrasse pela frente. Desde então, foi lembrado como o VAMPIRO que viria, um dia, acertar as contas com os fiscais – quaisquer que fossem  eles.

Contam que, no início deste ano, houve uma coisa estranha nessa grota, na noite escura de carnaval. Ninguém entendeu aquele barulho e, no outro dia, não souberam explicar o desarranjo no lugar. Terra removida, pedras enormes fora do lugar, arvores caídas, cheiro de enxofre, água correndo para cima, galinha botando ovo preto e gado bufando e fugindo para os montes com o rabo nas costas...

Alguns lavradores procuraram rastos na terra molhada e viram sinais de um estranho pezão de sete e oito dedos. Ficaram de cabelo arrepiado e voltaram assustados. O coisa dava sinais de seguir para a cidade. Houve comentários e o povo nem dormiu direito mais.

Nessa noite, o senhor João da Cruz Contrito descia da Mata para os Pintos. Vinha de uma novena, rezando o terço - e contou ter encontrado no caminho, numa volta escura, um vulto que lhe perguntara se ele conhecia algum fiscal. Ele achou aquilo muito estranho, ainda mais que o vulto parecia desviar-se dele, rosnando e encostando-se pelos barrancos – mas respondeu educadamente que não conhecia fiscais por ali, que ele fosse para a cidade.

Nessa mesma noite, alguns homens do bar da Mata e das Posses disseram ter visto um vulto parecido com gente e bicho passar numa disparada só, como um cavalo desses de puro sangue. Um motoqueiro que seguia para Maria da Fé tentou ultrapassá-lo e não conseguiu. Quando viu aquela cara de alma do outro mundo, babando como cachorro louco em mês de agosto, ficou apavorado, perdeu o rumo e desceu pasto abaixo. Dizem que até hoje o motoqueiro tem cara de leso, trata dos nervos e não anda mais de moto.

O final dessa história foi revelado em conversa despreocupada com piedosa mariense, cujo nome, por si só, tem força para arredar até o diabo: Dona Maria de Jesus da Cruz.  Dona de enorme fé ecológica, ela socorre cachorro de rua com amor desmedido. O acaso, muitas vezes, revela o tenebroso com a maior tranqüilidade. Foi contando das suas conversas com os vira-latas moribundos que soubemos de tudo.

Disse ela que, numa noite do carnaval, ouviu um chorinho sofrido e suplicante de um cão ferido em um beco de rua. Foi ver, mas não era um dos melhores amigos do homem – era um homem mesmo e muito estranho. Ao vê-lo, saiu depressa, mas ele suplicou gemendo e quase chorando: “chame um fiscal pra mim! Um fiscalzinho que seja!” E insistiu tanto que a aflita senhora saiu perguntando quem era fiscal em Maria da Fé. Por mais que perguntasse, a resposta era sempre a mesma: “não tem, não existe nenhum fiscal na cidade do azeite e de ninguém”. Então ela voltou abismada. Não sabia disso.

Que fazer? Dava pena ver aquela figura tão aflita como um cão sem dono. Levou-o para dentro de sua casa, colocou-o no sofá e pediu que fosse vendo televisão, enquanto ela telefonava para alguém. Estava passando o programa da Grande Família. Aos poucos aquela alma d’outro mundo foi vendo a cena em que o Lineu era ridicularizado no cumprimento do seu dever e entendeu que ele era fiscal, pois assim o chamavam. Arregalou os olhos e lambeu os beiços... mas estranhou muito que não sentisse o cheiro de sangre e não pode compreender que as imagens de TV são inodoras, porque não conhecera, em vida, esses aparelhos modernos.

Em um dado momento, viu a cena em que o amigo do Lineu zombava dele - e tanto que O COISA VAMPIRENTO ficou raivoso e atacou-o, mordendo  a televisão Toshiba... Houve um estouro, curto-circuito, os cacos de vidro voaram longe e entraram na sua boca e pescoço. O sangue jorrou e ele grunhia. A pobre senhora, apavorada com aquele comedor de televisão, julgou-o louco varrido e chamou a ambulância, que o levou sangrando quase morto

No hospital, aquela figura de vampiro se contorceu toda numa agonia de dar pena.  Na virada da meia noite, morreu de um jeito estranho, com enorme presa fora da boca e cara de cão. As transfusões de sangue de nada adiantavam, pois ninguém atinou que ele precisava de sangue do tipo “SF” – sangue de fiscal.  Na quarta-feira de cinzas, deu no Blog Pastodeeguas: “Vampiro morre em Maria da Fé por falta de sangue “SF”.

Genésio Fernandes

Um comentário:

  1. Obrigado por colocar aqui foto e informações sobre meu trabalho. A foto é de uma pintura tem como título: "Igreja São José, De Ouro Preto". Foi pintada durante o Festival de Inverno de Ouro Preto, em 1970. Eu participei desse festival, com a ajuda de um tio da Helenice, ex-secretária do Colégio João XXIII. Ele se Chamava Sebastião e era professor da escola de Engenharia de Minas... uma coisa assim, em Ouro Preto. Era um excelente pintor e deixou muitas obras. Ele pagou minha viagem e minha estadia lá e eu ganhei um prêmio com essa obra, na turma de Pintura-Iniciação.
    Ao obra ainda está comigo e procuro uma instituição que tenha condições de conservá-la adequadamente.

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