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sexta-feira, setembro 30, 2011

O Círculo no Sol ou o Leitor de um Livro só.

POR UMA BIBLIOTECA FARTA E VARIADA! 

Naquele lugar pequeno, a vida era de uma riqueza enorme. Mas a chave para dar sentido a coisas, fenômenos e ações humanas, vinha das idéias de um livro só. O entendimento de tudo era dado por um único livro, a Bíblia. Alguns nem isso tinham. Ela era a depositária do sentido único, da verdade de todas as verdades. Éramos leitores de um livro só. Por isso, às vezes, nos víamos às voltas com a morte, na aventura de atribuir sentido ao mundo.

Sol brabo, dia longo. Eu estava na roça com meu pai. À tarde, cansados, topamos terreno pedregoso. A terrinha ordinária ia se elevando aos poucos até a cerca da estrada. Eu me perguntava por que teimar com plantação naquele lugar.  O feijão crescia meio enrolado e o milho ficava anão. A palha de pinheiro incomodava os pés em tempo de capina, a enxada tropeçava nos pedregulhos, errava o curso.

Curvado, raramente eu olhava para o alto. Nesse dia, porém, levantei os olhos para ver quanta braça de céu restava ainda entre o sol e a serra. Foi quando vi, pela primeira vez na vida, aquele alo amarelado circundando o sol, assim como um imenso olho sobre nós. Coisa sinistra! E do céu.

Estremeci. As perguntas emperraram a garganta seca. A fama de menino arteiro, meus pecados todos, a impiedade de Deus e a chusma de diabos com pretensões enormes sobre minha alma pequena induziam-me o raciocínio e exigiam cautela. Sobressaltado, fiquei um tempo cabisbaixo, tocando a enxada sem perceber-lhe o peso. Por fim, perguntei ao meu pai o que vinha a ser aquilo.

Que desgraça! Meu pai fez pausa, nem olhou para a coisa sinistra, deu idéia de capinar mais rápido e fuzilou sério: é o sinal do fim do mundo... o mundo vai acabar. E ficou calado.

Meu corpo suado esfriou naquele mar de impiedade e silêncio. Sem rumo e em desgoverno, teimei em recobrar o ritmo das enxadadas, arrastando pedregulhos e matos para o pé e rezando mais do que a boca podia. O coração disparou feito bicho em agonia.

Entendi a coisa como na Bíblia. Faltavam os anjos nos quatro cantos das serras, mas as trombetas soariam primeiro com estridência de luz, de fogo, de aço de enxada em cascalho seco. Chegara a hora. O grande livro seria aberto e uma voz faria a impiedosa leitura da vida escrita, o escancaramento de todos os meus pecados. Tintim por tintim! Agora é que era! Haveria gritos e ranger de dentes, mas eu resistia com reza e rasteira.

Gaguejava ave-marias e tentava desenredar a linhagem de meus pecados para colocá-los em páginas de menor conta.

Não sei se meu pai percebeu a judiação crescendo na poeirinha rala daquela pausa sem-vergonha. Não sei e nunca lhe perguntei com medo de chorar já grande. Só sei que ele endireitou a espinha e desfez o juízo final à prestação: é sinal de chuva! Círculo no sol é sinal de chuva

Que alívio! Que suave cheiro o da terra, a poeirinha baixa ao nosso redor, o aço da enxada cortando tudo, eternamente leve, necessário e tão infinitamente distante do nada sem remédio. Que o sol estivesse a vinte braças da serra! Que houvesse frio, chuva ou calor! A luz alaranjada do poente subia a encosta e a sombra da tarde ia recolhendo as pastagens, o gado, os pássaros e todo alarido invisível dos grilos, gafanhotos e viventes miúdos. O que eu não daria para estar sempre neste mundo!

A falta de livros numa cidade, na escola e na família, é uma pena. O ponto de vista de um livro só dificulta dar sentido às coisas, faz sofrer, mata.

Por mais livros
Genésio Fernandes

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