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sexta-feira, abril 06, 2012

Oração do Milho - Cora Coralina



Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada. Ponho folhas e haste e se me ajudares Senhor, mesmo planta de acaso, solitária, dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo. E de mim, não se faz o pão alvo, universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre. Alimento de rústicos e animais do jugo.
Fui o angú pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante. Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessária e humilde
SOU O MILHO

3 comentários:

  1. Ahhhhhhhhh...o que dizer de Cora, essa mulher e poetiza maravilhosa? Muito lindo...! Adoro seu blog, parabéns!

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  2. Cora foi uma mulher que viveu à frente de seu tempo... desafiadora... ousada...

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  3. Emocionante ler cora, as vzs chego a lagrimas como agora lendo a Oração do Milho, me levou no tempo que eu era pequenininha lá em Bandeirantes aqui no Ms, me vi brincando na roça de milho que todo ano tínhamos.Obrigada Cora por nos fazer sermos sempre crianças!

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