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sábado, março 02, 2013

Dito Preto e o Guarda



Quem nunca ouviu falar do Dito Preto lá da minha terra deveras não sabe nada de mim. Pois até hoje não me apareceu amigo melhor – e ele infelizmente partiu fora do combinado, que é como eu costumo dizer. Falo sobre este personagem real que marcou muito a minha vida porque vou contar uma das suas.

O Dito tinha comprado um caminhãozinho ano 1928, Chevrolet, que era apelidado de “cabeça-de-cavalo”. O dito cujo, calhambeque, não tinha mais onde estar estragado. Sem pára-choque dianteiro ou traseiro, sem portas, carroceria podre, toda torta, pintura enferrujada que não dava nem pra ver a cor do bicho. Enfim, era aquele despropósito de viatura.

Mas, como o motor estava retificado, e esses motorzinhos vão longe até não sei quando, para o que ele queria de sua serventia tava pra lá de bom. Era só para o trabalho de puxar cana nas fazendas da redondezas, e isso ele agüentava bem.

Aos sábados, que era dia de folga do Dito – e é num desses dias em que se passa o nosso causo -, o Dito como sempre toma o rumo da Via Anhanguera, que leva até o rio Sapucaí, que está bem pertinho da nossa terrinha, que é São Joaquim da Barra, que foi onde eu e o Dito nascemos já faz um tempão.

Pois bem: ao pegar a referida estrada, num trecho onde estava sendo inaugurada uma melhoria no asfalto, eis que aparece, para surpresa do Dito, um enorme guarda rodoviário, fazendo sinal para ele, o Dito, encostar.

Dito foi com seu caminhãozinho para a direita da estrada e, lá embaixo, depois de rodar uns 100 metros, foi que parou com tudo. Não se ouvia mais nem o ronco do motor do calhambeque, que era aquela coisa sem definição, de tanto se misturar com o barulho de lata velha e carroceria podre. O diálogo que se seguiu entre ele e guarda, depois de o mesmo ter andado muito pra chegar até o lugar, foi assim:

GUARDA – Boa tarde (eram 6 da tarde, que é hora de pescaria).

DITO – Boa tarde, sim sinhô.

GUARDA – Vamos ver se está tudo em ordem?

DITO – Vamo sim, sinhô. Tô aqui pra colaborá com a polícia.

GUARDA – A carta?

DITO – Que carta, sêo guarda?

GUARDA – A carta de motorista, ué. Que carta poderia ser?

DITO – Ahn... essa, num tenho não. Num deu tempo d´eu cumprá a carta ainda.

GUARDA – Documento do carro?

DITO – Que documento?

GUARDA – Documento de propriedade do carro. Documento que prova que o carro é seu.

DITO (ofendido) – Pelo amor de Deus! O carro é meu. Comprei ele à prestação do Coroné Lindário. Pode perguntá lá em São Joaquim. Todo mundo me cunhece.

GUARDA ( já meio impaciente) – Mas o senhor tem que ter esse documento, meu amigo. Quer dizer que não tem?
DITO – Não sinhô. Esse documento, também num tenho não. Mas assim que eu pudé eu compro ele também...

GUARDA (indo à frente do caminhãozinho) – Ascenda os faróis.

DITO – O sinhô vá descurpá. O faró da esquerda tá queimado. E o da direita tá sem luz.

GUARDA – O senhor não tem nem pára-choque! É o que estou vendo.

DITO – Não, sinhô. Onde eu trabaio num pricisa. Num tem choque cum nada. É nas fazenda, puxando cana.

GUARDA – Buzina? O senhor tem?

DITO – Não, sinhô . num tenho também não. Num vô mentí pro sinhô. O sinhô acha que eu vô gastá dinhero cum supérfuo?

GUARDA (já meio irritado com tudo) – Eu espero que, pelo menos, breque o senhor tenha.

DITO – Se eu tivesse breque tinha parado lá atrás, quando o sinhô mandô!

GUARDA (já puto) – Não tem breque também, não é?
Pois bem: o senhor não tem carta, não tem documento, não tem farol, não tem buzina, não tem breque... Olha, meu amigo, se eu for multar o senhor, nem vendendo este caminhão vai dar pra pagar tanta multa. Onde o senhor está indo agora?

DITO (calmo) – Tô indo pescá uns peixinho no Sapucaí, que fica logo ali, ó.

GUARDA (puto, mas muito compreensivo) – Vamos fazer uma coisa. Faz de conta que eu não vi o senhor. Pode ir embora com o seu “veículo”.

DITO (calmamente, do seu jeito gaiato) – Então, sêo guarda, me faz um favô. Dá uma impurradinha no bicho que eu tô sem bateria tomém...

Contava o Dito que o guarda, numa boa, empurrou sozinho o tal “cabeça-de-cavalo” Chevrolet.


Por Rolando Boldrin

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